Deputado Federal Luiz Sérgio

Segunda, 21 Maio 2012

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Artigos

A importância da aqüicultura

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Por Luiz Valle
(Originalmente publicado no jornal Brasil Econômico em 13/01/2012)

 
artigo1_25jan2012Até a primeira semana de dezembro, as empresas brasileiras de captura e cultivo de peixes e frutos do mar estavam de cabelo em pé, ante os rumores de que a presidente Dilma eliminaria (entre outros) o Ministério da Pesca e Aquicultura, na esperada reforma ministerial de janeiro.

 
Passado o susto, com o anúncio da presidente de que o MPA será mantido, o setor agora quer saber qual será o orçamento da pasta em 2012 e nos três próximos anos de governo Dilma.
A dimensão desses números será como um tira-teima para empresários e investidores, muito interessados em saber qual a real importância do MPA e da atividade para esse governo.
Aliás, não apenas para esse governo, mas também para os senadores e deputados da base aliada, a quem sempre resta a possibilidade de engordar a dotação inicial com as suas famigeradas emendas.
Para um ministério que no governo Lula chegou a contar com quase R$ 500 milhões por ano, haver-se com apenas R$ 214 milhões, em 2011, foi um exercício de parcimônia, sobre o qual a ministra Ideli Salvati, à época titular da pasta, assim se referiu: "Temos um desafio oceânico e um orçamento de aquário!".
O aprofundamento da crise econômica internacional vem dificultar ainda mais a situação para o jovem MPA, neste momento de afirmação institucional: o contingenciamento no Orçamento Geral da União tende a elevar-se dos R$ 50 bilhões, em 2011, para R$ 60 bilhões, neste ano.
A sorte está lançada! Peter Druker, Nobel de Economia e pai da administração moderna, considera que a aquicultura deverá ser uma das mais importantes indústrias das próximas décadas e certamente a mais revolucionária. Qual será a consideração de nossos mandatários a respeito?
Que dirá Druker, se lhe dermos a saber que o Brasil detém 12% do total de reserva de água doce do planeta, 5 milhões de hectares de terras alagadas, 8.500 quilômetros de costa marítima e condições naturais das mais apropriadas ao desenvolvimento da aquicultura, e que, ainda assim, só participamos do comércio internacional de peixes e derivados com mísero 0,03% de seu volume global?
Somem-se a isso a elevação vertiginosa do consumo per capita brasileiro de peixe e derivados, ano a ano; o aumento nas importações e a estagnação da produção interna.
Todas as variáveis apontam no mesmo sentido. Vale perguntar: em que sentido apontará o governo brasileiro?
Por que será que a Time Magazine, enquanto o Oriente pegava fogo com os arroubos da "primavera árabe", estampou um peixe na capa de sua edição de 18 de julho de 2011, com a manchete "The future of fish: can farming save the last wild food?"?
Ora, nós nem precisamos descobrir o potencial da riqueza que temos nas mãos: o mundo já nos fez essa gentileza, resta-nos explorá-la.
A manutenção de um ministério que dê sustentabilidade à criação de uma política nacional de aquicultura e pesca, em um país com tamanho potencial a explorar, foi uma questão política ou de bom senso? Empresários e investidores do setor nunca esperaram tanto por uma resposta.

Luiz Valle é administrador de empresas e diretor executivo da Cavalo Marinho-Criação e Beneficiamento de Frutos do Mar

O silêncio que virou escândalo

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Por Emiliano José
(Publicado originalmente em Teoria e Debate nº 96 em 17/01/2012)

 
O livro de Amaury Ribeiro Jr. estava anunciado havia tempo. Desde que a velha mídia quis culpar o autor, numa espécie de habeas corpus preventivo encomendado por José Serra, de montar um dossiê contra o então candidato tucano à Presidência da República.  No entanto, talvez A Privataria Tucana não fizesse tanto sucesso não fosse o extraordinário silêncio das principais famílias da chamada grande mídia. Dizia-me um amigo, jornalista dos bons, que caso saísse com aquele título e com todas as páginas em branco, o livro causaria estardalhaço de qualquer maneira pelo escândalo do silêncio.
Diríamos que a velha mídia desconhece os novos tempos. Parece não saber que deixou de falar solitariamente. Há outros atores no pedaço, que não podem mais ser ignorados, subestimados, como ela o faz. Há as exceções da grande mídia, como CartaCapital, como Terra Magazine, há os blogueiros progressistas e há as impressionantes redes sociais, que se comunicam horizontalmente, não esperam mais a palavra de ordem dos vetustos senhores midiáticos.
As redes sociais divulgam o que consideram apropriado, tornaram-se mais capazes de captar o que é notícia do que eles, os comunicadores de antanho, que se acreditam ainda senhores da capacidade de decidir o que é e o que não é acontecimento digno de ser noticiado. Houve choro e ranger de dentes quando as redes sociais elevaram sua voz, disseminaram-na, provocando colunistas, tevês, jornalões, revistas, todo o conservadorismo midiático, sobre o porquê daquele silêncio.
O silêncio tornou-se um escândalo. Afinal, em poucas horas o livro tornara-se um best-seller, não poderia ser ignorado. E não poderia, além de tudo, porque revela, de maneira muito clara, uma parte ponderável do escandaloso processo de privatização levado à frente pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso que envolveu, de maneira absolutamente comprovada, o ex-governador de São Paulo e ex-candidato a presidente da República, José Serra. Tanto quanto sua filha, Verônica Serra, ao lado de vários outros atores importantes, sócios de Serra, mesmo que não formais. Há, aliás, um capítulo dedicado a isso: “Os sócios ocultos de Serra”, agora não mais ocultos.
Não poderia ser ignorado, vírgula. Afinal, o livro mexe com as vísceras de um projeto político e econômico que envolvia a velha mídia de modo direto, pois ela fora, uma parte dela, beneficiária do processo de privatização, e não podia, portanto, usar critérios jornalísticos diante da publicação, critérios que, aliás, abandonou de há muito. Melhor calar. Melhor persistir em sua impressionante partidarização, em sua filiação tucana, ao menos filiação econômica. Melhor fazer de conta que nada acontecera. Melhor acreditar que, não noticiando, o fato não existe.
E vamos ser claros: a velha mídia tem identidade profunda com o pensamento neoliberal, e não por acaso sempre combateu o governo Lula e combate agora o governo da presidenta Dilma. Tem lado, isso não se pode negar. O autor, no capítulo “O indiciamento de Verônica Serra”, ao abordar a fantasiosa versão da campanha presidencial passada, quando a velha mídia falava nas supostas tentativas de violação do sigilo fiscal dos apoiadores do candidato tucano, diz que “pela primeira vez, de modo tão escancarado e comovente, a mídia revelou sua alma serrista”. Aqui, um reparo: não foi a primeira vez. Isso vem de longe.
A tática do silêncio, do encobrimento de fatos jornalísticos, que às vezes funciona, nesse caso foi um equívoco grave. Tornou o livro muito mais impactante. Foi uma correria às livrarias. Estas e o editor se viram em palpos de aranha para atender aos milhares de solicitações, logo que a primeira edição de 15 mil exemplares se esgotou. O silêncio dos senhores midiáticos foi parcialmente responsável por esse sucesso. Tiro no pé. E a velha mídia viu-se à beira de um ataque de nervos.
Sabe-se, afinal tudo transpira, que Serra chegou a ligar para um colunista, de sua amizade, e não são poucos os bons companheiros dele na velha mídia, para agradecer a defesa que o conhecido jornalista fizera dele mas, encarecidamente, pedia-lhe que não abordasse mais o assunto, nem para defendê-lo. Melhor calar.
Nas redações dos jornalões, as discussões se acirraram, o mesmo nas tevês, nas revistas. Afinal, todos estavam nus, no meio do estádio lotado, e a torcida gritando, pedindo gol. Os que resolveram noticiar alguma coisa o fizeram de forma envergonhada, e sem ir a fundo, e tentando encontrar algum meio de defender Serra, sua filha, seus parceiros. Diríamos, sem a pretensão de parafrasear ninguém: uma vergonha.
As redes sociais, os blogs progressistas, CartaCapital, Terra Magazine, entre outros, já falaram muito sobre o livro, e bem. Encontraram um amplo espaço, aberto pelo estrondoso silêncio. Seria pretensioso e redundante fazer uma resenha. Registro apenas que é um trabalho jornalístico precioso, típico de um repórter aplicado, meticuloso, que mergulha atrás das provas, que documenta tudo, que vasculha, que não subestima os fatos, como deve ser todo bom jornalista. Não denuncia de maneira irresponsável, como tem acontecido tanto ultimamente. Não trabalha na linha do teste de hipóteses de um Ali Kamel. Claro que qualquer publicação está sujeita a críticas, mas inegavelmente esta tem muito mais méritos que defeitos.
Serra e seus bons companheiros estão pagando o preço de  ter subestimado o autor. Apressaram-se em atacá-lo durante a campanha, como se fossem vítimas, especialmente Serra e sua filha, e agora estão sentindo o peso da verdade, absolutamente documentada. Aparece ali toda a voracidade tucana de desmontar o Estado brasileiro, de vender as estatais a preço de banana, numa operação política e econômica balizada pelo Consenso de Washington, que levou nações pelo mundo afora à bancarrota, e seus povos à miséria. O livro, no entanto, não trabalha com esse específico enfoque.
O que quer, e consegue, é demonstrar como o tucanato, a família Serra na linha de frente, confundiu inteiramente os negócios públicos com os privados, privatizou o dinheiro público, subordinou os interesses nacionais aos grandes grupos econômicos interessados na privatização. E como recolheu avidamente as sobras polpudas desse processo, de modo direto, escandalosamente, como o demonstra a impressionante massa de documentos que o autor apresenta.
Verônica e seu marido, Alexandre Bourgeois, o quase-primo José Marin Preciado, Ricardo Sérgio de Oliveira, Vladimir Antonio Rioli foram os principais operadores de Serra. A quem não domina isso de perto, impressiona o jogo de prestidigitação financeira das operações, as viagens do dinheiro que sai do Brasil e volta, as mirabolantes operações de lavagem de dinheiro público, as incontáveis empresas offshore (ou empresas-camaleão), que servem a esse fim, as tentativas de apagar as pistas, agora desmascaradas pelo livro. O dinheiro público apropriado para fins de acúmulo patrimonial privado parece, como diria o autor, ter vida própria, está sempre mudando de nome, de endereço, de forma.
O esquema Serra parece ter alguma forma de magia: seus operadores tiram sempre da cartola uma maneira de esquentar o dinheiro conseguido ilegalmente. Foi, como diria a chamada de primeira página do livro, o maior assalto ao patrimônio público brasileiro. E documentado, fartamente documentado, provado. E há sempre, mais do que comprovada também, a presença de um personagem constante na vida dos escândalos brasileiros, Daniel Dantas, sócio de Verônica Serra.
Esta, aliás, devidamente indiciada pelo crime de violação do sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros em janeiro de 2001, no apagar das luzes do governo Fernando Henrique Cardoso. A empresa Decidir do Brasil, nascida de uma sociedade em Miami entre Verônica Serra e sua xará Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, conseguira a proeza ao assinar um convênio com o Banco do Brasil.
Como se vê, o Estado brasileiro, então, estava devidamente privatizado, entregue aos interesses de uma família e seus operadores. Também a Iconexa S.A., empresa de Alexandre Bourgeois, o genro de Serra, foi indiciada em 2005 pelos crimes de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. A nossa velha mídia não viu nada disso. Não queria ver, fazia questão de não ver. Afinal, não se constituíam em fatos jornalísticos na sua ótica partidarizada. Atingia o coração do tucanato.
O esquema de corrupção montado por Serra e seus operadores não dispensou a ajuda de agentes da Polícia Federal nem de ex-membros da repressão política à época da ditadura. É certo que Serra mudou muito, deu um giro de 180 graus em suas posições políticas. Da Ação Popular ao PSDB foi um longo caminho percorrido, vindo da esquerda para a direita. Mas o livro mostra que ele se apropriou dos métodos da própria ditadura, e foi buscar ajuda entre aqueles que participaram do aparato repressivo contra a esquerda brasileira.
Assim, valeu-se não só de Marcelo Itagiba, ex-deputado federal e delegado federal, como também de Ênio Gomes Fontelle, conhecido como “Doutor Escuta”, ex-oficial da chamada comunidade de informações organizada pelos militares, mais precisamente do Serviço Nacional de Informações. Serra sempre foi muito bom na construção de dossiês, sempre teve gente especializada nesse trabalho. E por isso, para tentar esconder o que fazia, denunciava os adversários de cometer o crime que rotineiramente praticava.
Uma coisa é certa: estamos diante de um livro indispensável para a compreensão do que foram os anos de Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Do que significou o neoliberalismo no Brasil. De como foi montada uma operação familiar para assaltar os cofres públicos. De como se fizeram fortunas fáceis. Afinal, não há experiência neoliberal na América Latina que não tenha se valido de tais expedientes. É uma prática intrínseca ao projeto.
O livro também deixa claro como a velha mídia brasileira se associou a essa empreitada, sem vacilações. Por questões políticas, ideológicas e, nenhuma dúvida, materiais. Houve tentativas de desqualificação do trabalho, anteriormente ou a posteriori, com a publicação já nas ruas. Equivocadas, de modo geral. Houve os que disseram tratar-se apenas de um trabalho decorrente das contradições, aliás nada desprezíveis, entre os tucanos Serra e Aécio. Se estas contaram, não foram essenciais, pois o autor se dedicava ao texto havia mais de uma década.
Por cima de tudo isso, e desmontando todas as tentativas de desqualificação, o livro se constitui num tapa na cara dos que assim agiram, um soco no estômago. Concorde-se ou não com ele, concorde-se no todo ou em parte, veio para ficar. Torna-se uma referência essencial quando quisermos visitar a década perdida, a dos anos 1990. Perdida para a maioria. Ganha para uns poucos, aqueles que protagonizaram o maior assalto ao patrimônio público de nossa história.
Emiliano José é jornalista, escritor, deputado federal (PT/BA)

O salário mínimo na 6ª economia do mundo

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Por João Felício
(Publicado originalmente em www.pt.org.br em 17/01/2012)
O novo salário mínimo, no valor de R$ 622,00, anunciado pelo governo federal é um daqueles exemplos que demonstram de maneira inequívoca a diferença entre os oito anos de governo neoliberal, comandado pelos tucanos e democratas e os nove anos de um governo democrático popular, capitaneado pelo PT.

 
Na segunda metade da década de 90 e nos dois primeiros anos do século XXI, nós trabalhadores vivíamos um período de grandes dificuldades. O desemprego era altíssimo, empresas nacionais falindo, estatais vendidas por preços abaixo do mercado, o BNDES a serviço das privatizações e das multinacionais… Diversos setores da economia quase desaparecerem devido a irresponsável política de “abertura total”, que incentivava a importação predatória, sem nenhuma espécie de proteção à indústria nacional. O Estado, comandando pelos neoliberais, não cumpria seu papel de indutor do desenvolvimento e servia apenas para privatizar a riqueza e socializar os prejuízos. Para tentar controlar a massa de miseráveis que sua política produzia, o governo demo/tucano utilizava de algumas medidas compensatórias e esmerava-se na repressão aos movimentos organizados. Nossas lutas, organizações e dirigentes eram criminalizados e o governo cumpria a risca as determinações do “Consenso de Washington”, que preconizava o Estado mínimo e que todas as demandas da sociedade seriam resolvidas pelo mercado.

 
Acuado, resistindo como podia, o movimento sindical tinha como uma de suas principais pautas, a elevação do salário mínimo para cem dólares. Parlamentares petistas, oriundos do movimento sindical, tentavam a todo custo dar respaldo legal à esta reivindicação, lutando dentro de um Congresso com maioria de representantes do capital e dos setores mais conservadores da sociedade.

 
Cansado daquele modelo, o povo brasileiro resolveu dar um basta e, em 2003, elegeu o primeiro presidente operário da nossa história, dando início a uma profunda mudança na política econômica. As privatizações foram suspensas, se começou investir na indústria nacional, multiplicaram-se os valores destinados para agricultura familiar, os juros baixaram e o crédito deixou de ser o privilégio de poucos, a produção foi retomada com vigor, os programas sociais incluíram no mercado consumidor uma população do tamanho da Argentina. Foi acordada uma política de recuperação e reajuste do salário mínimo, amplamente negociada com todas centrais sindicais.

 
Os mesmos burocratas que assessoravam os tucanos ocuparam espaço na grande mídia - sua mais fiel aliada - com os mesmos velhos argumentos de que o aumento causaria inflação, descontrole das contas públicas, insolvência de prefeituras e governos estaduais. Editorialistas, articulistas “cientistas sociais”, encheram páginas de jornais para nos convencer do erro que seria o aumento do mínimo.
A política de reajuste, baseada na inflação e no crescimento do PIB, fez com que nesse ano o aumento fosse de 14%, elevando o salário mínimo a 332,62 dólares, mais de três vezes o valor que reivindicávamos durante o governo demo/tucano. Este novo salário mínimo, segundo o DIEESE, vai injetar 47 bilhões na economia, beneficiando diretamente 48 milhões de pessoas, principalmente famílias da classe C, proporcionando um aquecimento extra do mercado, que vai redundar em mais produção, mais comércio, portanto mais empregos.

 
Defendamos uma baixa dos juros mais rápida do que o ritmo adotado pelo governo e maior proteção a determinados segmentos da indústria, de maneira a evitar a competição predatória. Contudo, consideramos que a presidenta Dilma está no caminho certo ao manter a política de valorização do salário mínimo, persistir no investimento social, acreditar no mercado interno, não cair no canto da sereia de “contensão de gastos”, defendida por todas as viúvas de FHC na mídia. É graças a essa política que vivemos extraordinário processo de inclusão social e que nosso país está passando incólume à crise econômica internacional, que a dois anos devasta a economia européia.


 A recuperação do salário mínimo, portanto, é uma das razões para que o Brasil tenha se tornado a sexta maior economia do planeta por que, ao contrário do que pregam os neoliberais, optou por enfrentar a crise com produção, fortalecimento do Estado na economia, distribuição de renda, justiça social.
João Antônio Felício é secretário Sindical Nacional do PT e secretário de Relações Internacional da CUT.

Brasil sem Miséria é corajoso, ambicioso, inovador e factível, diz especialista em políticas sociais

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Em artigo publicado nesta terça-feira (21), no jornal Folha de São Paulo, a doutora em Economia e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lena Lavinas, escreve: “quem não se orgulha de pensar que seremos finalmente um país rico se formos verdadeiramente um país sem miséria?” Especialista em políticas sociais, ela ressalta que “tornar melhores e operacionais nossas próprias estruturas de intervenção, valorizando os servidores na sua prática cotidiana territorializada, é uma grande transformação”.

Leia abaixo a íntegra do texto:


Erradicação da miséria, bons auspícios
Lena Lavinas

De lema de campanha a desenho de um programa de ação, nem sempre vinga a transmutação quando se trata de política pública.

O diferencial do Plano de Erradicação da Miséria do governo federal, lançado à sombra das disputas políticas da República, é ser corajoso, ambicioso e absolutamente factível. E ainda inovador.

É corajoso por reconhecer que milhões de brasileiros e brasileirinhos, embora elegíveis ao Bolsa Família, estavam à margem do direito a uma renda mínima de subsistência. O processamento do Censo de 2010 ainda não permitiu conhecer o número de famílias que, vivendo abaixo da linha de R$ 70 mensais per capita, não recebe nenhum benefício, não tendo direitos elementares assegurados.

Pelos dados da Pnad 2009, um terço dos arranjos familiares considerados indigentes não era alcançado pelo programa, algo como 3 a 4 milhões de pessoas.

É corajoso revelar com transparência que um dos grandes trunfos de um governo avaliado de forma tão positiva como o governo Lula necessitava de reparos importantes para superar ineficiências horizontais, que geram iniquidades entre os mais necessitados.

É ambicioso por afirmar que a intersetorialidade é a mola mestra da política social e por ter como meta implementá-la de fato. Deixa para trás os controles tão pouco efetivos à frequência escolar e às visitas aos postos de saúde que o Bolsa Família mantém para promover a aquisição de dotações, que são a fragilidade maior de quem é pobre.

Renda é indispensável em uma economia de mercado -e as externalidades positivas dessa política tornaram-se incontestes aos olhos dos mais reticentes na crise de 2008/2009. Porém, como nos ensinou Amartya Sen, é igualmente necessário ser capaz de transformar renda em bem-estar, dotações básicas em meios de vida.

Não se convertem automaticamente bens primários como educação elementar ou outras acessibilidades em capacidades e habilidades para viver autônoma e livremente. O compromisso da nação em assumir o desafio de ampliar essas dotações básicas é o DNA do novo plano. É factível, pois o Brasil conta hoje com institucionalidade, no âmbito do nosso sistema de seguridade social, que garante meios para tornar efetivas tais práticas.

O Suas (Sistema Único de Assistência Social) acaba de ser aprovado no Senado, novamente na total ignorância dos brasileiros, que desconhecem os marcos legais de intervenção de que dispõem para forjar uma sociedade mais justa e igualitária, liberta da miséria.

Mobilizar os Centros de Atendimento da Assistência Social na busca ativa, ampliar e fortalecer o Programa Saúde da Família, operando na inclusão, criar oportunidades por meio da descoberta de formações ou mesmo apenas em um aprendizado mais constante das letras e dos números para quem nem conseguia perceber as grandes mudanças recentes do país, tamanha sua exclusão, é pouco e ao mesmo tempo um gigantesco desafio.

Tornar melhores e operacionais nossas próprias estruturas de intervenção, valorizando os servidores na sua prática cotidiana territorializada, é uma grande transformação, desta feita salutar.

Finalmente, é inovador porque consegue levar em consideração a realidade de cada rincão deste país na articulação de necessidades e oportunidades. Não é tarefa fácil, toma tempo, energia e não vai custar tão barato como se apregoa.

Oferecer oportunidades é muito mais caro e trabalhoso do que apenas prover um auxílio monetário que garante consumir um pouco mais do mesmo. Trata-se agora de prover aquilo cuja ausência e o não acesso são o alimento da miséria.

Seria uma lástima se nós, brasileiros, mais uma vez, desconhecêssemos o que está em curso. Afinal, quem não se orgulha de pensar que seremos finalmente um país rico se formos verdadeiramente um país sem miséria?
 

Fonte:
Folha de São Paulo

 

Conheça mais em: http://www.brasilsemmiseria.gov.br/

Três refeições por dia

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Luiz Inácio Lula da Silva lançou o Programa Fome Zero quando assumiu a Presidência do Brasil, em janeiro de 2003, e se comprometeu a conseguir que toda pessoa em seu país pudesse ter acesso a três refeições diárias. Eu havia encabeçado a equipe que preparou o programa, e Lula me confiou sua execução como ministro da Segurança Alimentar e Luta contra a Fome.

Os êxitos do modelo de desenvolvimento obtidos como o Fome Zero são visíveis: 24 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza no prazo de cinco anos e a desnutrição caiu 25%.Não só cresce o produto interno bruto do Brasil, como um número maior de pessoas se beneficia desse crescimento. Esta inclusão social e econômica é a principal razão de o país conseguir enfrentar melhor do que outras nações a recente crise. Oito anos depois do lançamento do Fome Zero, o Brasil me designou candidato a diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Em minhas prioridades para a FAO, o primeiro lugar é ocupado pela erradicação da fome no mundo. Estou certo de que é uma meta possível. O segundo pilar de minha plataforma é promover a mudança para sistemas de produção de alimentos sustentáveis, que permitam conservar em boas condições os recursos naturais – solo, água, biodiversidade, clima – necessários para proporcionar alimentos aos nossos filhos e netos. Como terceiro pilar, proponho que a FAO e outros organismos internacionais assegurem igualdade no manejo do sistema alimentar mundial.

Há quem me pergunte por que proponho uma agenda tão ambiciosa quando o mundo está envolvido em graves crises, com as derivadas dos altos preços do petróleo e de alimentos, do lento crescimento econômico, da mudança climática, da escassez de terras e de água. Creio que terminar com a fome, conseguir uma produção sustentável de alimentos e melhorar a governança global faz parte da solução dessas crises.

Comer é uma necessidade tão fundamental para nossa existência que é estranho questionar a sabedoria de propor que a FAO – criada em 1945 para acabar com a fome – faça tudo o que esteja ao seu alcance para ajudar todos no mundo a terem acesso a três refeições por dia. Quase um bilhão de pessoas – uma em cada sete habitantes de nosso planeta – sofre fome crônica. Não por falta de alimentos, mas porque não ganham o suficiente para pagar a comida que precisam.

Essas pessoas vivem na armadilha da fome, e escapar dela por seus próprios meios é impossível. Como qualquer um que tenha pulado algumas refeições sabe bem, a fome debilita o corpo e reduz a concentração. No longo prazo tem efeitos funestos. Nos adultos, impede de trabalhar e, nas crianças, impede seu aprendizado escolar. As pessoas desnutridas são mais suscetíveis às doenças, e sua expectativa de vida é baixa. Se uma mãe sofre fome na gravidez e não pode proporcionar comida suficiente aos filhos antes do segundo ano de vida, estes sentirão o dano durante toda a existência.

Há quem afirme que as pessoas têm fome por sua própria culpa. Mas a maior parte dos famintos é vítima de processos econômicos globais e nacionais que têm o efeito colateral de ampliar a brecha entre ricos e pobres. Sabemos que investir na erradicação da fome, em especial com programas que proporcionem às famílias muito pobres subvenções para permitir-lhes comer adequadamente, não é caridade, mas um investimento muito produtivo.

Os resultados são melhores quando as mulheres administram esses subsídios. Este tipo de proteção social permite às pessoas ficar de pé por si mesmas e começar processos de progresso econômico, sobretudo onde são mais necessários, nas comunidades mais próximas. O consequente aumento da demanda de alimentos estimula a produção local, o que favorece os pequenos agricultores se estes receberem um apoio adequado. A ação pública é fundamental para que se consiga isto.

Dedicado ao desenvolvimento rural por mais de três décadas, sei que aumentar a produção em comunidades pobres tem muitos efeitos positivos, inclusive além das próprias comunidades. Como muitos outros, afirmo que o acesso a uma alimentação adequada é um direito humano. Como economista, também sei que a satisfação desse direito de centenas de milhões de pessoas não só colocará fim ao sofrimento desnecessário em grande escala, como também será o arauto de uma nova era de prosperidade mundial e contribuirá para a obtenção de uma paz duradoura.

Não é uma simples ilusão. Vi com meus próprios olhos o que ocorre em países que enfrentaram com seriedade o problema da fome. Perguntem a qualquer ganês, vietnamita ou brasileiro sobre o impacto dos programas contra a fome em seus próprios países e estou certo de que confirmarão minhas impressões.


O artigo foi originalmente distribuído por Terramérica/IPS

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